Especialistas ouvidos pelo G1 divergem sobre cortes de árvores e sugerem até anticoncepcional contra pombos | Presidente Prudente e Região | G1

Especialistas ouvidos pelo G1 divergem sobre cortes de árvores e sugerem até anticoncepcional contra pombos
Especialistas ouvidos pelo G1 divergem sobre cortes de árvores e sugerem até anticoncepcional contra pombos

Em meio à polêmica sobre os cortes de árvores na Praça Monsenhor Sarrion, em Presidente Prudente, com o objetivo de espantar pombos, especialistas ouvidos pelo G1 divergem sobre o assunto.

Depois de sugerir erradicar 12 árvores, o governo municipal voltou atrás e decidiu acatar um parecer do Ministério Público Estadual (MPE), que indicou a poda.

Entre os especialistas entrevistados pelo G1, alguns apoiam a iniciativa do município de sugerir o corte. Outros dizem acreditar que, primeiramente, deve-se implementar medidas paliativas, para depois proceder com os cortes – entre as soluções “apresentadas”, está até ração com anticoncepcional para controlar o número de aves no local.

Doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Otago, na Nova Zelândia, e professor do Departamento de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), Eduardo Santos disse concordar com a erradicação das árvores.

“Não consigo ver outra solução que não seja o corte. Na praça, ao que me parece, as aves encontraram uma grande quantidade de poleiros nos galhos. Se houver a remoção [das árvores], as aves vão procurar um outro lugar para ficar [e, consequentemente, ‘deixar’ a praça]. Me parece uma solução razoável”, afirmou Santos.

Ele explicou que as aves se juntam na praça apenas para dormir. Durante o dia, elas “saem” em busca de alimentos, se dispersando por diversos locais da cidade e pela zona rural, retornando à praça para pernoitar.

“As aves geralmente ficam juntas, em grande número, para se proteger de predadores. Elas ficam unidas num mesmo local. Pode ser em uma praça, em uma ponte, em um prédio”, afirmou o professor da USP ao G1.

Os cortes, na visão dele, podem diminuir o número de aves no local.

“A erradicação das árvores deve minimizar [o problema da infestação]. Algumas podem continuar na praça, mas outras podem migrar para diferentes localidades, deixando o problema ‘menor’”, afirmou o professor ao G1.

Já a professora de Geografia e Engenharia Ambiental da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Presidente Prudente, Encarnita Salas Martin, que também é mestre em Geografia e doutora em Geociências e Meio Ambiente, discorda dos cortes.

Vale lembrar que todos os especialistas entrevistados disseram que as espécies mais comuns encontradas na Praça Monsenhor Sarrion – pombas-amargosas (as “margosinhas”) e as andorinhas – são altamente adaptáveis, com uma enorme facilidade de se “acostumar” com o ambiente ao qual estão inseridas.

Portanto, a questão é de difícil solução.

“Não adianta cortar as árvores. É a mesma coisa que tentar acabar com o piolho cortando a cabeça”, disse a professora.

Na opinião dela, algumas alternativas podem ser implementadas para mitigar o problema, com resultados efetivos e já comprovados em outras cidades do Brasil e do mundo.

Uma das opções, de acordo com Encarnita, seria dar ração com anticoncepcional às aves, fazendo o controle da população.

“Elas acabam se multiplicando muito rápido. Se colocar recipientes com comida e anticoncepcional, a proliferação será bem menor”, afirmou.

A medida já foi usada em Barcelona, na Espanha, e em alguns municípios da Colômbia.

Outra alternativa, disse a professora, seria espalhar repelentes nas árvores, o que resolveria parte do problema.

A professora também sugeriu espalhar CDs pelas árvores, já que as aves se assustam vendo a própria imagem.

Ela relatou ainda que algumas cidades dispõem de silhuetas de gaviões, um predador natural.

A decisão de podar as árvores é acertada, na opinião da especialista, e deve resolver a questão, por ora.

“Se as árvores tiverem copas menores, as aves vão procurar outro lugar para ficar”, falou.

Ela disse que este tipo de problema é tratado como praga urbana em alguns países e, em alguns casos, a solução passa até pela captura e pelo extermínio.

“É um problema de saúde pública. Espalham vírus, fungos e salmonela [através da fezes]. Tem que ser resolvido, sim. De alguma forma”, disse.

Uma outra medida citada pela professora é religar o sistema de som usado pelo município em 2014 para espantar os pombos.

Iluminação

Graduado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), com doutorado em Fisiopatologia e Saúde Animal e mestrado em Morfologia, Luiz Waldemar de Oliveira, professor de Ciências Biológicas da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), é favor da proposta da Prefeitura de Presidente Prudente de cortar as árvores.

Ele sugere que as árvores erradicadas – da espécie oiti (preferidas pelas aves por servir de poleiros) – sejam substituídas por ipês-brancos, ipês-amarelos, pau-brasil e palmeiras-imperiais.

“A ideia de retirar as oitis é adequada. Particularmente, analisando toda a situação, acho que seria o ideal a substituição das árvores. A espécie oiti não é a mais adequada para a área urbana. As outras espécies [ipês, pau-brasil e palmeiras] contribuiriam mais com o enriquecimento da ave-fauna urbana”, afirmou Oliveira ao G1.

Ele também sugeriu podas constantes nas árvores que permaneceram na praça, onde fica a Catedral de São Sebastião, no Centro da cidade, como a Prefeitura já vem fazendo.

Uma outra possibilidade, de acordo com ele, é inserir iluminação nos pés das árvores, de baixo para cima.

“A luz incomoda as aves”, disse.

O repelente também foi citado pelo especialista como forma de espantar os pombos, mas, antes de comprar o produto, a Prefeitura precisaria fazer testes para comprovar a eficácia.

“É um conjunto de medidas que precisam ser tomadas. Nenhuma providência isolada vai resolver”, ponderou.

O presidente da Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Presidente Prudente, Galileu Marinho das Chagas, disse que a entidade não tem uma “questão fechada” sobre o assunto.

Afirmou que a OAB apoia qualquer medida que tenha embasamento técnico.

Polêmica

O problema da infestação de pombos no Centro de Presidente Prudente é antigo, mas tem se agravado ultimamente.

Neste mês, o governo municipal sugeriu o corte de 12 árvores para diminuir o problema. A decisão causou polêmica na cidade.

Uma audiência pública na Câmara Municipal debateu a situação, com o enfrentamento de secretários e a população presentes no encontro.

A poda foi uma medida sugerida pelo Ministério Público Estadual, e acatada pela Prefeitura, como uma alternativa à ideia original apresentada pelo Poder Executivo de erradicar 12 árvores da Praça Monsenhor Sarrion e substituir cada uma delas por duas palmeiras.

O promotor de Justiça do Meio Ambiente e do Urbanismo, Jurandir José dos Santos, em entrevista ao G1, manifestou-se contra a erradicação das plantas.

POMBOS NA PRAÇA

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